História- Isilda Ribeiro

Ela voltou a ser a Isilda: a mulher que deu o grito de liberdade aos 60 Há histórias que nos prendem logo nas primeiras palavras. Outras, nos primeiros silêncios. A de Isilda Ribeiro, mulher do Norte, de voz firme e olhar vivido, começa com um amor o amor de uma avó, de um filho, e,…

Ela voltou a ser a Isilda: a mulher que deu o grito de liberdade aos 60

Há histórias que nos prendem logo nas primeiras palavras. Outras, nos primeiros silêncios. A de Isilda Ribeiro, mulher do Norte, de voz firme e olhar vivido, começa com um amor o amor de uma avó, de um filho, e, muito mais tarde, de si mesma. Aos 60 anos, ela não é apenas uma sobrevivente. É o espelho de milhares de mulheres que carregam no corpo as cicatrizes do silêncio e na alma a coragem do recomeço.

Isilda nasceu sem mãe nem pai por perto. Filha de mãe solteira, cresceu com os avós e os tios, envolta em carinho, mas também em sombras. Recorda com ternura os momentos de alegria da infância, as festas de família e o colo da avó. Mas entre uma gargalhada e outra, havia gritos. As portas a bater. Os sons da violência invadiram a casa com vento gelado. O avô a bater na avó. Os tios escondem os hematomas. E ela, uma criança quieta, aprende cedo demais que o amor pode doer  e que o medo tem cheiro, volume e rosto.

Isilda e a fundadora do Impacting Women

Mas a vida, ainda que ferida, seguiu. Isilda cresceu, tornou-se mulher, e como tantas outras, acreditou no amor. Casou-se jovem, teve um filho  o grande amor da sua vida e entregou-se à promessa de uma família feliz. Mas o ciclo da dor repetiu-se. Dentro de casa, voltou a ouvir gritos. Sentiu o corpo tremer, não por paixão, mas por medo. Não era mais a neta assustada, agora era a mulher calada, a esposa anulada, a mãe que escondia as lágrimas para proteger o filho. A violência doméstica instalou-se, insidiosa, enquanto o amor se desfazia em pedaços.

Durante anos, Isilda suportou o insuportável. Por amor ao filho. Por medo do julgamento. Por vergonha. Vergonha de andar na rua com marcas no corpo e feridas na alma. Vergonha de admitir que aquele homem que um dia a encantou era também o seu agressor. “Ou ele ou eu”, pensou um dia. E foi nesse momento que algo dentro dela gritou: basta. O medo deu lugar à coragem, e o silêncio, finalmente, à voz.

Veio para Lisboa de mãos vazias e coração rasgado. O filho ficou temporariamente com familiares, em segurança. Isilda não tinha casa, não tinha dinheiro, não tinha garantias, mas tinha uma missão. Viver. Sobreviver. Recomeçar. Dormiu pouco, trabalhou muito. Em fábricas, escritórios, infantários, lares, casas. De dia, limpava, vendia, cuidava. À noite, animava bares com karaokê para ganhar um extra. Teve três, quatro empregos ao mesmo tempo. Cada cêntimo era um passo para a dignidade. Cada madrugada era um voto de esperança.

E conseguiu. Construiu um lar. Trouxe o filho para junto de si. Venceu a solidão. Olhou-se no espelho e, aos poucos, reconheceu-se de novo. Voltou a ser Isilda. A sorrir sem pedir desculpa. A andar de cabeça erguida. A dançar.

Dançar. Esse verbo que sempre a acompanhou em silêncio. Desde pequena que sonhava subir aos palcos, deixar o corpo falar aquilo que o peito calava. E agora, aos 60, ela dança. Matriculou-se numa escola, dança com alma, com liberdade, com vida. Realiza um sonho antigo, provando que nunca é tarde para dar voz aos desejos que ficaram engavetados.
Mas Isilda quer mais. O palco não é o único destino. Hoje, promove alimentação celular, algo que, segundo ela, transformou o seu corpo e energia  e sonha ir além-fronteiras com isso. Quer levar saúde a quem mais precisa. Crianças desnutridas. Idosos abandonados. Aqueles que, como ela um dia, foram esquecidos por um sistema que pouco vê. Sonham em fundar uma casa de acolhimento. Um lugar onde crianças e idosos sejam abraçados, alimentados, olhados. Um lugar onde o amor cure as dores que o tempo não curou .

E entre sonhos e memórias, deixar uma mensagem a todas as mulheres que ainda estão presas em relacionamentos abusivos, em contextos de violência, em vidas que não escolheram: procurem ajuda. Não apenas fora, mas dentro. Porque quando ela deixou de buscar soluções só nos outros, e começou a olhar para dentro de si, encontrou tudo o que precisava para ser livre.

Isilda Ribeiro não é exceção. É espelho. É mulher. É filha, mãe, guerreira, sonhadora. E hoje, dança a vida com a certeza de que venceu.

Acompanhe mais aqui.

More from the blog